História da Filosofia – Aula 3: Heráclito e o Mundo das Contradições

Um grande número de crianças vivem nesse tipo de mundo graças à irracionalidade deliberada de seus pais, cujo comportamento é caracterizado por mudanças e flutuações constantes, de forma que nada permanece verdadeiro de um momento ao outro, e por constantes contradições. Essa é a receita perfeita para o mundo heracliteano.
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 3.
(Desde muito cedo na história da filosofia, Heráclito desconsiderou os sentidos como inválidos e aceitou a contradição na realidade. Dois mil e quinhentos anos mais tarde, ainda sentimos os efeitos de tais erros.)

Tales deu origem à filosofia confiando na experiência sensorial e na razão. O próximo filósofo[1]Heráclito – não só seguiu um caminho diferente, mas deslanchou uma reação em cadeia que atravessou a história, derrubando como dominós tudo o que o homem tentou erigir com sua razão. Tudo começou com o problema da mudança e multiplicidade; tudo terminou com a minha sobrinha de treze anos perguntando petulantemente: “Por que não posso simplesmente decidir que sou um menino?”

Tales explicou a mudança encontrando na água um denominador comum a todas as coisas. Isso significava que a água estava em toda parte, apenas diferente. Tudo era água (a mudança não implicava uma substituição total), mas não era (poderia mudar um pouco, afinal). Portanto, Heráclito concluiu que tudo é e não é ao mesmo tempo: o mundo está cheio de contradições. A Lei da IdentidadeA é A – não se aplica. A Lei da Não-ContradiçãoA não pode ser A e não-A ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto – é uma falsidade. Minha sobrinha está certa.

Como todos os filósofos da época, Heráclito queria encontrar a “unidade na multiplicidade”, aquela substância primitiva subjacente a tudo. Mas só o que ele viu permeando o mundo foi a própria mudança, e não alguma substância permanente (ele acabou escolhendo o “fogo” mais como uma metáfora para o puro movimento do que como um “algo” metafísico). A essência metafísica da realidade é a mudança. “Você não pode pisar no mesmo rio duas vezes”, ele supostamente disse.

Assim, ele pode ser considerado o ídolo daqueles evasores que, descontentes com sua própria existência, encontram consolo no fato de que tudo muda. Eles confundem o “metafisicamente dado” com o “feito pelo homem” e apenas esperam por tempos melhores, desejando que fossem diferentes. Mas Heráclito foi veemente: você não pode entrar no mesmo rio duas vezes não apenas porque o rio mudou, mas porque você também mudou. Quem pisou pela primeira vez não existe mais para pisar na segunda – pessoas não existem. Desculpa.

O verdadeiro legado de Heráclito, porém, foi sua conclusão a partir da premissa de que tudo está mudando o tempo todo: que os sentidos são inválidos. Nós vemos muita coisa que é imóvel, imutável. Mas, ao mesmo tempo, isso não pode ser; devemos estar sendo enganados. Nós só podemos conhecer a realidade através da razão, ele disse tacitamente. Heráclito é, assim, o pai do Racionalismo. Mas ainda mais importante, ele é o pai do Dualismo, porque agora dois diferentes reinos coexistem: realidade e aparência.

O resultado final da influência heracliteana através dos milênios é o flagrante relativismo tão prevalente hoje, a ideia de que não há absolutos, que tudo é relativo. O que eu mais quero das minhas aventuras filosóficas é mostrar como isso é errado. Eu vejo verdades absolutas em todo o meu redor, no combate, na morte, na vida – o que acontece depois que eu pressiono o gatilho é sempre um absoluto.

No entanto, não posso desejar que minha sobrinha conheça o combate. E eu ainda preciso respondê-la.

 


Notas

1. Logo após Tales, Anaximandro e Anaxímenes (os outros dois filósofos da escola Milesiana) basicamente propuseram novas versões de sua metafísica monista onde apenas a matéria primordial seria diferente, sem grandes inovações ou influências duradouras. Acho que, por isso, Leonard Peikoff simplesmente os ignorou em seu curso.

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