Escuridão Que Se Aproxima

Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com as escuridões de outras pessoas.
— Carl Gustav Jung

Estou na minha escrivaninha, muito cedo pela manhã, logo após acordar. Eu tenho uma caneca de café na mão e uma página em branco na tela do computador. A umidade do ar combina com a crosta nos olhos para tornar a visão nebulosa, como um sonho. Em contraste, o sonho em si não está nada nebuloso na minha memória, tão fresco que quase posso sentir o cheiro de enxofre. Não é a mais bonita das manhãs, e será quente. Eu sinto frio.

Sempre fui assombrado por sonhos. Lembro-me da “cabeça” na minha infância. Aquele rosto oval dourado flutuando na mais pura escuridão, sempre me olhando com órbitas vazias como uma caveira, analisando com seu olhar, ameaçando com seu movimento. Lembro ter muita curiosidade sobre a escuridão ao redor dela.

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate.”[1]

As palavras são tão claras em minha mente que as vejo pairando nas montanhas à frente, do outro lado do vale, quase como um imenso letreiro macabro de Hollywood. Não é “a cabeça” falando; isso é o que está escrito no portão do Inferno de Dante. A cabeça já se foi há muito, como aquelas professoras do jardim de infância das quais temos apenas uma frágil sensação de sequer terem existido. São outros demônios agora. As palavras são culpa do meu pai; ele costumava recitá-las na hora do jantar, mas eu não lembro o contexto.

Eu vejo o fogo, mas não é vermelho ou amarelo; é azul, verde, cinza. E não está nada quente. A mera lembrança me faz tremer e eu envolvo minhas mãos ao redor da caneca, inclinando meu rosto sobre ela. Ela queima minha mão e o fogo também. Está frio, mas queima.

A caveira com a foice me espera no barco, com seu manto negro e esfarrapado cobrindo desde o topo da cabeça até o material escuro e pastoso abaixo. Não vejo o remo. Lembro-me de pensar sobre essa incongruência. Quão absurdas são as preocupações do homem! Aquele rosto ossudo sem olhos sorri para mim. Você deve sempre pagar o barqueiro. Eu ignoro esse costume. Eu sempre odiei dar esmolas.

Eu reconheço o lugar, o rio Estige, o rio dos mortos, e estou cruzando-o. O rio faz um murmúrio baixo, mas não é de água corrente. Claro, o rio é feito de sangue de pecador, mas também não é sangue se movendo. Abaixo do barco há uma massa estagnada morta de uma antiga substância coagulada, mas mesmo assim nos arrastamos por cima e através dela. O ruído é um lamento, um lamento dos mortos, escorrendo por esse meio maligno como um esgoto a céu aberto – só que não há céu aqui. É um som palpável de luto, pesar, tristeza. O cabelo na minha nuca se arrepia com a memória; eu suponho que o mesmo acontecera no sonho. O barulho faz com que tudo pareça mais sombrio, cada pranto um trovão agourento da tempestade que se aproxima.

Eu continuo avançando na escuridão, impotente. Acho que eu morro em seguida. Mas aí, eu acordo.

 


Notas

1. “Deixai toda esperança, Ó vós que entrais.” Divina Comédia – Inferno, canto III, linha 9.

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