O.P.A.R. – Comentário: Evasão Metafísica

Realismo […] se torna um sinônimo de conformismo irracional. A partir dessa visão, seria ‘irrealista’ […] rejeitar o racismo com Hitler no poder… Essa abordagem leva à sanção do status quo, independentemente do quão degradado, e assim transforma seus defensores em peões e acessórios do mal.
Leonard Peikoff, “O.P.A.R.”, página 26.
( Mulheres alemãs nos Sudetos da Tchecoslováquia saúdam alegremente Hitler após a primeira de uma série de invasões absurdas que levaram à Segunda Guerra Mundial. Elas haviam submetido sua percepção individual da realidade à do grupo e, ao fazê-lo, cegaram-se voluntariamente. Como Pascal adverte em Pensées : “Nós corremos descuidadamente para o abismo depois de colocar algo na nossa frente para nos impedir de vê-lo.“)

Quase todo protagonista de uma estória tem um antagonista, algo ou alguém que tentará impedi-lo de alcançar seus objetivos. É normal imaginar algum tipo de “vilão”, e Ayn Rand realmente parece às vezes ver os problemas do mundo como fruto das maquinações maquiavélicas de Kant e seus sucessores. Mas em seus momentos mais sãos, ela identifica exatamente o verdadeiro mal, uma força impessoal que assola a humanidade, o arqui-inimigo do Objetivismo: a evasão.

Leonard Peikoff é mais explícito sobre o problema da evasão no Capítulo 2 de O.P.A.R., mas já no Capítulo 1 encontramos o que eu gosto de chamar de “evasão metafísica”. Em essência, é uma questão de acreditar que a realidade poderia (e deveria) ser diferente. Mas não confunda isso com ver uma realidade desagradável, querer mudá-la e fazer algo a respeito. Isso seria a coisa certa a se fazer. Isso seria o oposto de evasão. Isso seria combate. Mas a pré-condição de lutar contra a realidade é primeiro aceitá-la como tal. E é na recusa primitiva de fazê-lo onde a evasão se encontra. Em resumo, evadir-se metafisicamente é pensar que você pode mudar a realidade sem gastar lágrimas, suor ou sangue.

Você se evade metafisicamente quando aceita a primazia da consciência, quando pensa que a realidade é o que você quer que seja, ou o que a sociedade concorda que seja, ou o que Deus faz ser. Nos três casos, você está usando uma consciência para fugir da realidade, seja a sua pessoal, a do coletivo ou a sobrenatural. Um estereótipo composto seria o jovem mimado que acredita que seus desejos têm que se tornar realidade, que se une a grupos ativistas de esquerda (de nomes que geralmente começam com a palavra “consciência”) quando ele considera oportuno para apaziguar seu desajuste pessoal, e que “fecha seu corpo” em um centro de macumba para garantir seu sucesso. Ele usa todas as armas que ele tem para mudar a realidade – na verdade, para evadi-la.

Outro tipo de evasão metafísica ocorre quando se consideram fatos feitos pelo homem como fatos metafisicamente dados. Nesse caso, tem-se uma pessoa conformista, o chamado “realista”, que simplesmente aceita como as coisas são, considerando-as imutáveis. Sua desculpa para a inação é alguma versão da frase “Mas a vida é assim…”. O melhor entre essas pessoas é quem se resigna a uma vida de mediocridade interior; o pior, o que luta ativamente para manter o status quo como seu único porto seguro, uma vez que navegar em águas desconhecidas o petrifica com pavor.

A evasão é um mal muito maior do que a violência, a pobreza ou a fome. É a causa subjacente de todos esses males e muito mais. É um inimigo invisível para olhos destreinados e um hábito muito difícil de extirpar, mesmo quando identificado. Confie em mim sobre isso. Mesmo depois de ler e escrever a respeito, eu me evado dezenas de vezes por dia – todos os dias.

No próximo capítulo de O.P.A.R., o assunto é epistemologia, e evasões ainda mais ubíquas surgirão.

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