História da Filosofia – Aula 2: Tales e o Nascimento da Filosofia

…eles são um monumento não à vida, mas à morte, e a questão no Egito não era quão boa uma vida você poderia viver, mas quão boa uma morte você poderia morrer..
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 2.
(Contraste essa atitude pró-morte com a atitude pró-vida dos gregos: “Antes servo na terra do que rei no mundo dos mortos”, disse o fantasma de Aquiles a Odisseu. A primeira produziu gigantescas tumbas para turistas; a segunda criou a filosofia.)

Filosofia é fazer as grandes perguntas. Mas se elas já são respondidas pelo Estado ou pelo sacerdote mais próximo, para quê o esforço? Desde as grandes dinastias da Suméria e do Egito, a explicação do mundo era dada pelos deuses-reis. A vida era inexoravelmente dura e sofrida, e seria melhor para o homem voltar sua atenção para o outro mundo, para a vida após a morte. Essa maior de todas as evasões do homem não foi uma invenção do cristianismo — basta lembrarmos das pirâmides, aquelas gigantescas tumbas. Melhor se curvar, rezar e implorar do que tentar entender e explicar o mundo. Foi na Grécia do século VI a.c. que tudo isso mudou, e começou com Tales.

A Grécia se desenvolvera de uma maneira atípica. A monarquia forte de tempos passados dera lugar a cidades-estado muito mais livres na política e tolerantes na religião. Além disso, a Grécia, e principalmente suas colônias na Ásia Menor (hoje, Turquia), estavam na interseção entre Europa, Ásia, e África, posição estratégica que favoreceu fortemente o desenvolvimento do comércio. E, no comércio, o que interessa é se você paga bem, não se acredita no mesmo deus que eu.

Os deuses gregos também eram diferentes, quase tão humanos quanto os homens, cheios de virtudes, mas também vícios. Eram mais como irmãos mais velhos do que mestres omnipotentes e omniscientes. Não seria pecado pensar um pouco sobre o mundo, e no caso de alguma ofensa, bastaria matar um porco e oferecê-lo a Baco com bastante vinho.

Com essa liberdade, a Grécia se enriqueceu, e alguns cidadãos obtiveram aquela dádiva tão importante para o livre-pensamento: o tempo.

Mas sobre o que pensavam? Duas coisas os intrigavam: mudança e multiplicidade. Mudança englobava quase tudo, desde o nascimento ao envelhecimento, desde uma folha caindo a uma tempestade furiosa. Multiplicidade era outra faceta da mudança: Por que existiam tantas coisas diferentes?

Passaram a raciocinar que deveria haver um mesmo “algo” subjazendo tudo, afinal vivemos em um único universo. Até hoje não sabemos que coisa seria essa, mas já chegamos muito longe. E foi Tales que iniciou essas perguntas e observações.

Natural de Mileto, cidade-colônia grega que fervilhava de comércio na Jônia, Ásia Menor, ele foi o primeiro a buscar unidade na multiplicidade. Isso significou buscar semelhanças em coisas diversas — o fundamento para explicações racionais.

Observando que água virava gelo e vapor, e também que virava terra (Mileto ficava em um delta de um rio e deltas nada mais são que sedimentos depositados, ou seja, “água que vira terra”), e vendo sua importância para a vida, ele propôs que água seria a “matéria primordial” do universo, aquilo que integraria tudo e proveria uma explicação natural para mudança e multiplicidade.

A resposta dele está, obviamente, errada, mas isso não interessa. O que importa é que ele fez as perguntas certas e buscou a categoria correta de respostas. Assim funciona a ciência, buscando princípios e leis que regem os fenômenos à nossa volta através da observação do mundo natural.

E isso também surgiu com Tales.

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