Morto-vivo

Eu perdi toda a minha juventude lá dentro… eu sou um morto-vivo.
No que dependesse de mim, seria só morto.

Duas expressões faciais: uma explodindo de alegria, outra, chorando de tristeza. Um tributo às musas da comédia e da tragédia? Um símbolo do teatro ao vivo? Não. Matador de policial. O AK-47 é apenas uma confirmação. A pistola tatuada na panturrilha, mais uma. Três cartas: Ás, Cinco e Sete (Art. 157: “Roubo armado”), ainda outra. Eu digo que ele já deveria ter morrido. “Eu sou um morto-vivo”, ele concorda.

Ontem, nós invadimos alguns barracos em uma favela com um visual cinematográfico, próxima ao mar, na Zona Sul do Rio. Um criminoso foi preso e dois suspeitos levados para averiguação. Uma missão sem graça cumprida, com zero tiros desferidos. Hora de partir. Não. Nos mandam aguardar, e ficamos sem objetivo abaixo de um calor de 40 graus, fazendo nada além de nos expor aos transeuntes curiosos — e aos criminosos escondidos no meio deles.

O Sr. Morto-Vivo era um desses últimos.

Ele tinha uma cara amarrotada e oleosa, com olhos sem vida afundados nas suas órbitas. Uma cicatriz o cortava desde o canto esquerdo da boca até abaixo da orelha, como se alguém tivesse tentado fazê-lo ficar mais feliz com uma faca. Um nariz torto e mais cicatrizes em volta dos olhos e supercílios me contavam uma história de brigas e espancamentos constantes. Os poucos dentes que restavam estavam podres. Sua pele era manchada, pegajosa e amarelada. Suas tatuagens toscas e borradas eram um testemunho de uma vida na cadeia: seu corpo, agora vivia temporariamente no lado de fora; sua alma, em putrefação e decadência eternas ainda no lado de dentro. O cara parecia um diário de guerra aberto, estigmatizado por uma vida na morte, e por uma morte que se recusava a colaborar — ao contrário, ela zombava dele.

E ele, de nós.

Ele aparece no banco de trás de um moto-táxi. Um mero relance nos mostra se tratar de um vagabundo. Com fuzis famintos, mandamos ele descer da moto. Imediatamente, vejo as tatuagens — a raiva em erupção nos meus olhos como lava em um vulcão. Nenhuma arma com ele. Nós, então, levantamos sua ficha: trinta e cinco anos de vida, quase metade na cadeia. Tráfico de drogas, furto, roubo, homicídio, ele já fez de tudo. Mas não deve mais nada à Lei, e sabe disso. Ele já “pagou a sua dívida com a sociedade”. Ele está limpo. Nós o deixamos ir.

Mas não antes de eu lhe dizer o quanto gostaria de tê-lo encontrado em outra situação, uma que incluísse ele atirando em mim, e eu respondendo. Eu penso em todos os meus amigos mortos. Eu o vejo matando todos eles.

Agora, ele fica furioso. No começo, parece insultado. Ele me fala para fazer, para atirar nele de uma vez. Seu rosto se distorce em uma máscara de desespero, me incitando a levá-lo a um beco e simplesmente matá-lo. Eu o olho com nojo e ódio. Eu também me permito um mínimo de pena. E é aí que eu entendo.

Ele não está insultado.

Ele está me pedindo um favor.

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