Primeiro Dia de Trabalho

Cheguei no trabalho pensando em viaturas; cheguei em casa pensando em ovelhas.

As chamas do campo de batalha celeste remanesciam no horizonte, declarando a vitória iminente do dia. À frente do muro branco, as viaturas eram pedaços negros de noite, desertores de uma guerra perdida. Ocupavam toda a lateral direita do extenso pátio que leva à CORE, estacionadas quase a noventa graus, apontando enviesadas para a saída como se loucas para partir. Antigamente, eu diria estarem sedentas por combate; hoje, penso desejarem ir para casa. Só eu parecia querer estar ali, já que chegava na direção contrária. Mas era só impressão.

Eu caminhava como um cigano: bolsa preta semi-cilíndrica na mão direita, garrafa d’água pendurada, escova e pasta-de-dente aparentes em uma pequena rede lateral; saco plástico branco na mão esquerda com dois lençóis, travesseiro e mudas extras de roupa; mochila com um par de botas trançadas por fora; duas pistolas na cintura junto à pele e três carregadores sobressalentes no cinto. Durante aquela aproximação sem fim, o suor pingava pela testa e por baixo da camisa, como se o ar abafado sugasse a minha própria água para se refrescar. Cada passo em direção ao plantão me aproximava do Horizonte de Eventos de um buraco negro: um observador de fora me veria quase parado, meus passos cada vez mais lentos e reduzidos, destorcidos pela gravidade extrema; mas na minha cabeça, o templo fluía aceleradamente, como se meus últimos dezessete anos viessem correndo e empurrassem meus pensamentos para o futuro, em um exercício fútil de adivinhação. Como seria retornar após um ano?

A resposta viria lenta e gradualmente durante todo o dia: revi velhos amigos, conheci outros novos, fiz compras de equipamentos táticos, almocei num restaurante inédito, comi um bolo delicioso, malhei. Das 23 às 5 horas, dormi. Como dizia meu pai, “Como é bom não fazer nada e depois descansar!

Logo que acordei, saí rapidamente para evitar o trânsito. Em dois minutos, estava na Linha Amarela voando para casa. Com os olhos ainda embargados de sono, vejo dois carros acelerando na contramão pela minha direita, e demoro algumas frações de segundo a mais do que deveria para entender. Levo instintivamente minha mão à arma. Pouco à frente, a avenida passa espremida entre duas favelas do Complexo da Maré: Vila do João e Timbau. É muito comum a circulação (ou o mero vislumbre) de bandidos armados ali. Os carros que eu vira eram só os populares mais eficientes na fuga — ou os mais covardes. Rapidamente, tenho minha confirmação quando o fluxo inteiro de carros se inverte e lanternas vermelhas se tornam faróis ofuscantes. Me vejo como uma criança que é arrastada pelo retorno da água espraiada somente para ser encaixotada pela onda que se forma em sentido contrário. Frivolamente, eu entretenho o pensamento de tentar continuar, de desembarcar do carro, de ir ver do que se trata, de combater. Mas quase tão rápido quanto o pensamento vem, ele se vai.

Com as palavras de meu pai me zombando na mente, junto-me às outras ovelhas, dou meia-volta, e, por outro caminho, vou para casa descansar.

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